Ainda a luz – 3
Da República de Platão ficou conhecido o sétimo livro, onde está exposta a alegoria da caverna. Mas no livro seis já se encontra a idéia fundamental da luz enquanto terceiro termo ou a idéia do Fiat Lux:
” Sócrates – Considera o seguinte: o ouvido e a voz precisam de algum elemento de espécie diferente, o primeiro para ouvir e a segunda para ser ouvida, de modo que, se esse terceiro elemento vier a faltar, o primeiro não ouça e a segunda não seja ouvida?
Adimanto – De modo algum.
Sócrates – Eu penso que as outras faculdades não precisam de nada semelhante. Ou pode citar-me alguma?
Adimanto – Não.
Sócrates – Mas não sabes que a faculdade de ver e ser visto precisa disso ?
Adimanto – Como assim?
Sócrates – A visão pode estar situada nos olhos, e estes podem ser usados para enxergar; a cor, da mesma maneira, pode estar nos objetos. Contudo, se a isso não for acrescentado um terceiro elemento, a vista nada verã e as cores não seram percebidas.
Adimanto – De que elemento estás falando?
Sócrates – Aquele que denominas luz.
Adimanto – Tens razão.
Sócrates – Logo, o sentido da visão e a faculdade de ser visto estão unidos por um laço incomparavelmente mais precioso do que aquele que estabelece as outras uniões, desde que a luz não seja uma coisa desprezível.
Adimanto – De maneira alguma ela é desprezível.
Sócrates – Qual é, então, na tua opinião, de todos os deuses do céu, aquele que pode realizar essa união, aquele cuja luz faz com que os nossos olhos vejam da melhor maneira possível, e os objetos visíveis sejam vistos ?
Adimanto – O mesmo que tu e todas as pessoas reconhecem como senhor: o Sol.
Sócrates – Então, não está a vista, pela sua natureza, nesta relação com esse deus?
Adimanto – Que relação?
Sócrates – Nem a vista é o Sol, nem o é o olho, onde a vista se forma.
Adimanto – Evidente que não.
Sócrates – Porém, de todos os orgãos dos sentidos, o olho é, no meu entender, o que mais se assemelha ao Sol.
Adimanto – Sim, sem dúvida.
Sócrates – Muito bem ! E o poder que o olho possui não lhe vem do Sol, como uma emanação deste ?
Adimanto – Certamente.
Sócrates – Não é verdade que o Sol, que não é a vista, mas seu princípio, é percebido por ela?
Adimanto – Sim, é.
Sócrates – Pois o Sol que eu chamo de filho do bem, que o bem engendrou à sua própria semelhança. Aquilo que o bem é, no campo da inteligência em relação ao pensamento e aos seus objetos, o Sol o é no campo do visível, em relação à vista e aos seus objetos.
Adimanto – Como assim? Explica-me isso.
Sócrates – Tu sabes, logicamente, que os olhos, quando contemplam objetos cujas cores não são iluminadas pela luz do dia, mas pela claridade dos astros noturnos, perdem a acuidade e parecem quase cegos, como se não fossem providos de visão clara.
Adimanto – Sem dúvida.
Sócrates – Admite, portanto, que se dá o mesmo a respeito da alma. Quando ela fixa o olhar naquilo que a verdade e o ser iluminam, compreende-o, conhece-o e mostra que é dotada de inteligência; mas, quando olha para aquilo que está obscurecido, para o que nasce e morre, sua vista fica embaçada, passa a ter apenas opiniões, indo sem cessar de uma a outra e parece desprovida de inteligência. “

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