A Loucura do Dia

Estou traduzindo La Folie du Jour, de Blanchot, para servir de apêndice à minha tese de mestrado. O relato foi vertido ao português somente em Portugal, por um certo Silva Carvalho, tradução da qual encontrei somente um registro na biblioteca nacional portuguesa, referente à edição de 1987 (original aparentemente em 1981), e nada mais. Claro que segundo meus propósitos o mais óbvio seria traduzir parte da obra ensaística de Blanchot, visto que a tese lida mormente com a parte ensaística da obra.Porém tendo sidos traduzidos no Brasil os principais livros desse tipo de Blanchot (O Espaço Literário, O Livro por Vir – recentemente – , A Parte do Fogo, A Conversa Infinita – do qual o terceiro volume encontra-se em vias de tradução, creio) e nada tendo sido ainda feito em termos da obra ficcional, pensei em traduzir algo diferente, um récit, que para quem não sabe é algo entre o conto e o romance. ” A Loucura do Dia ” é uma espécie de relato – se mesmo o conceito de relato aqui não for insuficiente – sobre a experiência de um alguém, alguém que narra, atravessado e dissolvido pela obra que relata. Esse autor, ao longo da narrativa, passa por alguma experiência – da qual só obtemos vestígios – que faz com que perca a visão, e a partir desse acontecimento se opera um deslocamento entre a visão e o poder de relatar, entre a escrita do relato e o relato ele próprio. Desse momento em diante a única versão do que aconteceu é a versão louca de quem experimentou esse acontecimento, justamente a única testemunha cuja ficção pouco fidedigna é a única da qual dispomos. Durante o decurso da coisa, o narrador se depara com a Lei – Lei que na figura dos médicos exige dele que fale, que dê vazão ao relato, que cubra a extensão do visível e mantenha suspensa sua distância em relação a esse todo; ” conte-nos como tudo se passou “, ” nada omita “. Mas o evento foi justamente o que operou a cesura entre toda possibilidade de encontro à distância entre o relato e a ficção que ele relata, entre a verdade da linguagem e a verdade da experiência. Então, no final, o narrador e protagonista responde com as primeiras linhas do relato que acabamos de ler, e qual não é a surpresa do leitor que, logrado, percebe que o relato que ele acaba de ler é o relato desviado, o único relato que o narrador é capaz de entregar, forçado pela Lei. E a frase final, que diz
” Un récit ? Non, pas de récit, plus jamais “
Vem para confirmar essa suspeita. Está dada, tarde demais, a possibilidade da disjunção que é a narrativa; não essa em especial, mas toda narrativa.

Não descrever mas criar… A descrição pretende representar, mas uma vez que não estamos certo do que seja o real, o mundo verdade se mostrou uma mentira, de forma que não há mais parâmetros inquestionáveis que estabeleçam a boa representação… abandonamos a tentativa e assumimos a tarefa de criar… Como já percebera Proust, uma rosa pintada por um artista pertence ao seu jardim secreto e não se confunde nem se reporta a nenhuma flor do mundo… Criemos!!!
Muito boa notícia, essa tradução!
Tenho A Conversa Infinita, mas achei a tradução muito complicada! O que você achou? Comentamos no Catatau a respeito dela, parece não respeitar a lógica do texto (embora tenha sido só impressão, pois não examinei o original, e quando a leitura é mais difícil do que o habitual, desconfiemos!)