Leituras de 2011 – Thomas Mann – A Montanha Mágica – 1924

Fui atrás da Montanha Mágica porque tinha ouvido falar que, na época do famoso debate entre Heidegger e Cassirer em Davos-Platz, na Suíça, no ano de 1929, os presentes associaram o embate às discussões entre dois personagens de um livro que fizera muito sucesso há pouco, isto é, às discussões entre Lodovico Settembrini – um humanista italiano – e Leo Naphta – um judeu convertido em cristão, jesuíta, expatriado de idéias niilistas e um timbre muito mais radical que o italiano, presentes nessa que é clichê considerar uma das obras primas do romance alemão, senão da própria literatura.

O livro conta a história de Hans Castorp, um jovem engenheiro de vinte e poucos anos que, antes de iniciar-se em sua profissão (ocuparia um posto em um estaleiro em Hamburgo) e dar seguimento ao curso “natural” da vida, procura fazer uma visita ao primo Joachim Ziemssen, aspirante a oficial que se encontra internado no Sanatório Internacional Berghoff por conta de uma doença pulmonar qualquer. A visita deveria tomar apenas três meses de seu tempo, mas a experiência acaba por se mostrar decisiva e central na vida do “herói” (Thomas Mann o chama, ironicamente, de herói) – e dura sete anos. No ambiente etéreo do sanatório Hans acaba descobrin uma mancha no pulmão em uma radiografia e se deixar internar, não sem participar das infinitas discussões entre Settembrini e Naphta. Encontra também toda sorte de personagens que exprimem os conflitos diversos da Europa da bèlle époque e da Alemanha da República de Weimar.

O romance emula as formas do bildungsroman clássico, isto é, procura detalhar as experiências que envolve a configuração de uma consciência, no caso a formação da alma de Hans Castorp, que deixa sua casa para aprender sobre cultura, política, filosofia, sobre a vida em geral; mas de certa forma funciona também como uma alegoria do esgotamento desse modelo: Castorp não chega a se decidir pelo humanismo progressista do italiano, nem pelo misticismo radical do jesuíta; sempre hesitante, não hesita em aproximar-se das mais diversas experiências, ainda que contraditórias. Alguns detalhes do romance mostram essa hesitação: a febre de Hans Castorp (um dos vários motivos de sua longa residência no sanatório) nunca sai de certo grau; nunca excede, nunca recua. Ele mesmo não se deixa enclausurar em nenhuma escola de pensamento: experimenta tudo, está sempre aberto a novas experimentações, a novos sonhos. Não chega, portanto, a formar-se (o que em muitos momentos exaspera o humanista Settembrini). A obra não chega a expressar a formação de uma consciência. As posições extremas de Naphta e Settembrini o atraem, mas nunca em definitivo.

Li algo na wikipedia que merece nota: a ambiguidade da escrita de Thomas Mann. Embora guiada pelo realismo mais escrupuloso – como nas descrições dos estudos de medicina e botânica de Hans Castorp, por exemplo, meticulosas ao extremo -, a novela ainda assim carrega “deep symbolic undertones”, para usar a expressão do verbete. A simbologia começa já com o uso da montanha: a montanha é o lugar em que o tempo não passa, o fora do tempo, ou ao menos o lugar onde ele se dá de modo totalmente diferente, em oposição à “planície”, lugar do tempo milimetricamente mesurado e utilizado. Algumas das melhores passagens do romance são digressões do protagonista sobre a natureza do tempo, como as seguintes, que fazem pensar em Proust. Elas variam, como pode-se notar, quanto ao motivo relacionado ao tempo.

Fala-se do tempo enquanto experiência:

“No fundo constitui fenômeno esquisito esse processo de aclimatação num lugar estranho, a adaptação – por mais laboriosa que seja – e a mudança de hábitos à qual as pessoas se submetem só para variar e na intenção firme de abandoná-la imediatamente ou pouco depois de completada, a fim de voltarem ao estado anterior. Intercala-se tal processo como uma espécie de interrupção ou entreato, no curso principal da vida, e isso para fins de ‘restabelecimento’, quer dizer: para exercitar, renovar e revolucionar o organismo que corria perigo, e já estava a ponto de se amimalhar, de enlanguescer e de entibiar, na desarticulada monotonia da existência rotineira. Mas, qual é a origem desse langor, dessa tibieza, nos casos decontinuidade por demais extensa e ininterrupta de uma rotina? Trata-se menos do cansaço e do desgaste físico e espiritual, que causam as exigências da vida – para eles, o simples descanso bastaria como remédio reconstituinte -, do que de algo psíquico: é a consciência do tempo que ameaça perder-se na uniformidade constante, e que liga laços tão estreitos de parentesco e afinidade à própria sensação de vida, que não se pode debilitar uma sem que a outra sofra e definhe também. Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos errôneos. Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo ‘fazem passar’ o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isto não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem ‘tediosos’ o momento e a hora; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leeves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa – esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação de tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, uma retardação da nossa experiência do tempo, e com isso, o renovamento da nossa sensação de vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódico. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer: vigoroso e amplo. Isto se aplica a uns seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se ‘aclimata’, começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de fazê-lo, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana – de quatro, por exemplo – é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se ainda valer quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão. E o senso de tempo de quem já está fatigado, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em certo grau – o que é sinal de pouca força vital -, volta a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse do sonho de uma noite. ” – pg. 145.

Fala-se também do sentido ontológico do tempo, dos paradoxos lógicos que o envolvem:

” Que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. Mas, deixaria de haver tempo, se não houvesse movimento ? Não haveria movimento, sem o tempo? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço? ou vice-versa ? Ou são ambos idênticos ? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, ‘traz consigo’. Que é que traz consigo? A transformação. O agora não é o então; o aqui é diferente do ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser qualificados de repouso e de imobilidade: o então repete-se constantemente no agora, e o ali repete-se no aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidimo-nos a configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor. Ora, estabelecer o postulado do eterno e do infinito não significa, porventura, o aniquilamento lógico e matemático de tudo quanto é limitado e finito, e a sua redução aproximada a zero? É possível uma sucessão no eterno ou uma justaposição no infinito? São compatíveis com as hipóteses de emergência do eterno e do infinito, conceitos como os da distância, do movimento, da transformação, ou a simples existência de corpos limitados no universo? Quantas perguntas improfícuas!” – pg. 471.

E fala-se das relações entre tempo e narrativa.

” Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si ? Não, isso seria deveras uma empresa tola. Uma história que rezasse: ‘o tempo decorria, escoava-se, seguia seu curso’ e assim por diante – nenhum homem de espírito são poderia considerá-la história. Seria como se alguém tivesse a idéia maluca de manter durante uma hora um e mesmo tom ou acorde e afirmasse ser isso música. Pois a narrativa se parece com a música no sentido de que ambas dão um conteúdo ao tempo; ‘enchem-no de uma forma decente’, ‘assinalam-no’ e fazem com que ele ‘tenha algum valor próprio’ e que ‘nele aconteça alguma coisa’, para citarmos, com a melancólica piedade que se costuma devotar aos ditos dos defuntos, algumas observações ocasionais do saudoso Joachim, palavras essas que há muito se perderam no espaço; nem sabemos se o leitor é capaz de dizer claramente quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narrativa, assim como é o elemento da vida; está inseparavelmete ligado a ela, como aos corpos no espaço. É também o elemento da música, que o mede e subdivide, tornando-o precioso. Nesse ponto, como já mencionamos, assemelha-se a narrativa e difere da obra de arte plástica que surge diante de nós de uma vez, em todo o seu esplendor, e não se acha relacionada com o tempo senão à maneira de todos os corpos. A narrativa, porém, não se pode apresentar senão sob a forma de uma sequência de fatos, como algo que se desenvolve e necessita intimamente do tempo, mesmo que deseje estar toda presente a cada instante que transcorre.” – pgs. 739-740.

***

 

Assim como a temporalidade é o problema central no livro de Thomas Mann, era um dos temas centrais no debate travado entre Ernst Cassirer e Heidegger.

A seguir o trecho da biografia de Martin Heidegger que me levou à leitura do livro:

” Lá em cima em Davos, em seu romance A Montanha Mágica, surgido em s1924, Thomas Mann fizera o humanista Settembrini e o jesuíta Naphta realizarem seu grande debate. Eram arquétipos do embate intelectual daquela época. De um lado Settembrini, filho impenitente do iluminismo, um liberal, um anticlerical, um humanista de incrível eloquência. De outro lado Naphta, apóstolo do irracionalismo e da inquisição, apaixonado pelo eros da morte e da violência. Para Settembrini, o espírito é uma força da vida, para ajudar o ser humano; mas Naphta ama o espírito contra a vida. Settembrini quer elevar, consolar e alargar a visão dos seres humanos. Mas Naphta quer incutir-lhes terror, enxotá-los da ‘cama da licenciosidade’ humanista, expulsá-los de suas casas-da-cultura  quebrar o pescoço de sua petulância. Settembrini quer o bem dos seres humanos, Naphta é um terrorista metafísico.

Participantes da semana universitária de Davos realmente lembravam-se daquele fato ficcional. Kurt Riezler, então curador da universidade de Frankfurt e acompanhante de Heidegger nos passeios de ski pelas montanhas, alude ao episório de A Montanha Mágica em seu relato para o Neue Zürcher Zeitung (30 de março de 1929, edição matutina).

Portanto, atrás de Cassirer o fantasma de Settembrini, e atrás de Heidegger o de Naphta? (…)”

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~ por espectral em quarta-feira, janeiro 12, 2011.

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